sexta-feira, 28 de abril de 2017

Verão de sessenta e oito

a paz que me dá. fonte
Tinha acabado de sair do ensino médio, então mal conhecia os discos, e se os ouvia era sem muita atenção - não costumo buscar ou saber letras de músicas que ouço, e mesmo ouvindo mil vezes não decoro a letra (inclusive Raul Seixas). Por acaso coloquei Atom heart mother pra tocar num final de tarde, enquanto fazia umas tarefas domésticas. De repente, de distraída passei a prestar atenção na melodia de Summer '68. Tem gente que lembra a primeira vez que ouviu o The dark side of the moon e de como foi o impacto. Comigo foi Summer '68. Tinha certeza de que era especial. E é. Praticamente me lembro do clima e do sol se pondo naquele fim de tarde.

Não sei ainda por qual motivo acabo adorando músicas de despedida de casais espontâneos (ou artista mais groupie/caso de viagem), aconteceu com Free bird no último post, e com Stay, também do Floyd, composta por Waters e interpretada pelo querido Rick (talvez eu saiba, só que para dizer demoraria dias). Mas nem é tanto pela letra (que é de uma delicadeza inexplicável), é pelo Rick, é pelo arranjo, é pelo grave do piano.

Quando criança queria ser três coisas, que eu chamava de PPP (não é Projeto Político-Pedagógico nem - deus me livre - Parceria Público-Privada): Professora, Pianista e Pintora. Consegui mais ou menos dar aulas meio sem querer querendo. Tive horror à licenciatura, mas nunca trabalhei, desde meus 16 anos, num local sem crianças. E ainda bem, as amo e as quero ajudar e compreender. Pintora? Bem, já pintei um quadro que se estragou na chuva e adoro desenho, xilogravura, estudar arte e design, mas nada muito profissional; até o fim da década é possível que me aventure no técnico em comunicação visual. Agora pianista, se Deus quiser, um dia. Preciso.

Enquanto não sei nem toco piano, órgão ou contrabaixo, ouço com a maior fé do mundo minhas canções favoritas, bela e sutilmente doloridas. As do Richard Wright, tecladista do Pink Floyd, são meu xodó. O "disco da vaca", mesmo possivelmente rechaçado pela própria banda, é um de meus favoritos dela. Pela Summer '68 e por ela ter me acompanhado o caminho para a faculdade de 2011 a 2013, pelas ruas de Itaquera de manhã cedo. Por ter comprado o disco original na livraria toda serelepe enquanto meus bebês do Museu Escola escolhiam seus livros favoritos e praticamente corriam por entre as estantes de tamanha felicidade. Pelo final psicodélico da adolescência que tive lá por 2011/12. Pelo cover que fui da banda e fui agradecer o tecladista por tê-la tocado (o Renato Moog é massa demais).

Prometo que começo a escrever mais tecnicamente e com história, fontes, sinopses e indicações, afinal, meu propósito de vida é falar sobre música. Deixa só a inspiração parar de aparecer de madrugada. Enquanto isso, conheçam a LuluBelle e se atentem aos graves do piano, eles são muito importantes.

sábado, 22 de abril de 2017

Simples e livre como um pássaro

os 7 cabeludos topper no encarte de Nuthin fancy, 1975.
Tenho a mania de dizer que esta ou aquela é minha música favorita, tanto que minha last.fm somou 1.383 faixas com o coraçãozinho marcado. Todas elas o são por algum motivo. Aliás: todas as músicas que ouço são ouvidas por algum motivo. Não sei ouvir sem auxílio da memória, de lembranças, e talvez por isso seja tão difícil para mim aceitar lançamentos, e tão fácil amar hoje o que odiava em 1996.

Esse post está saindo antes do que um que deixei em rascunho semana passada, mas imagino que será mais curto e simples, então bora lá.

Em algum momento na minha vida me apaixonei por duas músicas do Lynyrd Skynyrd, ambas do disco que nos ajuda a dizer o nome da banda: Pronounced Leh-Nerd Skin-Nerd (1975). Mas assim: me apaixonei mesmo. Porque, assim como as músicas do próximo post, ou talvez mais, elas me colocam nos eixos daquilo que decidi que sou, fui e vou.
'Cause I'm as free as a bird now
And this bird you cannot change

Free Bird
Aquele tipo de melodia e letra que nos faz observar o horizonte com a vista embaçada lembrando momentos aleatórios da vida, sobretudo da infância, que parecia causar emoções mais puras e intensas. Me lembro de passear com meus pais e, na volta, observar a cidade à noite e sentir um profundo medo da imensidão da vida e acabar caindo no sono. Lembro das promessas da adolescência de nunca, jamais deixar os "adultos" provarem estar certos sobre todas as vezes que me diziam "isso passa", "eu também pensava assim", "as coisas não acontecem desse jeito", "é só uma fase" e n desmotivações e conselhos que eu ouvia engolindo um ódio descomunal que sinto até hoje. Porque, veja bem, sou muito rancorosa (ou, melhor dizendo, minha memória é boa até demais para situações desconfortáveis que lembro limpidamente de angústias desde 1995) e pior (ou melhor): quando me dizem que não posso algo, dou um jeito de poder. Porque não acredito no impossível e não admito que me digam que vida devo levar.

Versão ao vivo com a formação original da banda 3 meses antes do acidente
[observem esse solo de guitarra pelo amor de deus]

Escrevendo aqui me dei conta de certas coisas que me seriam impensáveis na adolescência, que são questões meritocráticas, sociais, políticas, econômicas, e tudo aquilo que discutimos seriamente (ou não) todos os dias. Mas não é bem por aí que gostaria que vissem o que essas músicas me trazem. É bom analisar sob todas as formas, mas a de hoje não é essa. É questão mesmo de quando você se deixa levar pelos outros e se cala para o conforto da família, dos amigos, dos colegas de trabalho, do que é "normal"; de se prender a pessoas e situações pelo que os outros vão achar. Nos calamos em vários momentos da vida, mas há diferença entre se calar apenas por calar, e se calar para fazer suas coisas do seu jeito sem alardes e obter êxito caminhando por atalhos no que for possível, provando assim que aquilo era realizável, etc. É sobre princípios, ideais, e essas coisas.
Oh, be something you love and understand
Simple man
Até porque, sempre tento me lembrar de que a vida é uma só, e se tem uma pessoa que nos acompanha nela 100% do tempo, até a morte, somos nós mesmos. Viver o que o outro espera não faz sentido, nem é saudável. E para eu me dar conta de que ainda sou eu, e poder reavaliar o que fiz e farei, são essas músicas que ouço. São momentos de reflexão e, até o momento, satisfação. Essas duas músicas são como alguém me perguntando se está tudo bem, e eu respondendo com a sinceridade que não tenho para quando sou perguntada: é, está sim. Foi assim que não desisti daquilo que acredito, e em vez de deixar isso pra lá, com tantos péssimos conselhos que existem por aí, eu simplesmente busco maneiras e argumentos para me provar. Para mostrar que sou possível, que sou assim e que quero as minhas coisas assim. Podia melhorar, claro. Mas aí a questão já será mais política e para outro post.


versão de estúdio, 1973

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ingmar Bergman's Höstsonaten (Autumn Sonata - 1978)






Liv Ullmann