sábado, 21 de janeiro de 2017

67 anos sem George Orwell

George Orwell em 1946, fotografia de Vernon Richards

Há poucos anos sequer imaginava a existência de Eric Arthur Blair, e anos antes, pior: não entendia seu propósito com o livro que depois se tornou um de meus favoritos.

Nasceu em Motihari em 25 de junho de 1903, quando a Índia ainda fazia parte do império britânico, de uma família inglesa de classe média. Sofreu como bolsista na "cara e esnobe" escola São Cipriano e passou um tempo com vagabundos ingleses, dormindo em albergues e relatando, como jornalista, como era a dinâmica de quem assim de fato vivia, por não ter emprego e seus direitos ignorados. Como morrem os pobres e outros ensaios conta essas e outras histórias, inclusive uma que me encantou pessoalmente: algumas reflexões sobre o sapo comum.

Lutou na Guerra Civil Espanhola (1936-39) junto ao P.O.U.M. - Partido Operário de Unificação Marxista. A partir da luta, escreveu Homage to Catalonia, ou Lutando na Espanha - seu relato de guerra. Nessa guerra também lutou Angelines Fernandez, a Bruxa do 71. Todos contra os fascistas, obviamente. Mais pessoas que participaram da luta e me são caras: Gerda Taro, Robert Capa, David Seymour e La Pasionaria - os três primeiros fazendo inacreditáveis registros fotográficos por toda a Espanha.

Mas Orwell, que na verdade é um pseudônimo de Blair, ficou conhecido pelas distopias que denunciavam o totalitarismo e a privação de liberdade de imprensa e pensamento, mas que muitas vezes foram anunciados erroneamente como obras simplesmente anti-comunistas. Orwell era de esquerda, anti-stalinista.

Comecei a leitura com 1984. Uma distopia sobre Oceânia, onde vive Winston Smith, cercado por cartazes do Grande Irmão (Big Brother não é por acaso), ciente de tudo o que acontecia vigiando a população com a Teletela, com vizinhos e parentes se denunciando por crimes de pensamento e a sociedade sendo moldada pela manipulação histórica e de notícias, conforme convinha ao Grande Irmão. Ora Oceânia era amiga da Eurásia e inimiga da Lestásia, ora o contrário. Smith era encarregado de sumir com notícias, alterações que não eram percebidas pela população, que esvaziava suas frustrações diante da imagem de Goldstein, o Inimigo nº1 d'O Partido, nos Dois Minutos de Ódio. Winston passa a prestar atenção no que acontece ao seu redor, e o resto pode ser conferido no livro, que teve dois filmes representando-o, em 1956 (muito modificado) e em 1984 (John Hurt ♡ e trilha sonora de Rick Wakeman).

John Hurt, falecido dias depois desse texto

A leitura foi começada três vezes. Na derradeira, era meu último ano de faculdade e eu não tinha pensado ainda no artigo de conclusão de curso. Bom, tinha assistido (e odiado, por ignorância minha) A Revolução dos Bichos (1999) no final do ensino médio, e como fã de Pink Floyd o tcc tinha que ser sobre a banda progressiva. E foi. O disco Animals (1977) é baseado no livro favorito de todos os tempos:

A Revolução dos Bichos (Animal Farm - a fairy story) é uma fábula distópica sobre os animais de uma fazenda que tomam o poder, expulsando os fazendeiros humanos. Mas esse poder é usurpado pelos porcos, que tendo os cães como polícia de seu governo totalitário exploram o restante dos animais e passam a fazer negócios com humanos de fazendas vizinhas. Desses animais, as ovelhas são a massa que termina de validar esse governo. É alusão à teoria de Marx (Major), levada adiante por Bola de Neve (Lenin) e corrompida por Napoleão (Stalin) com a ajuda do porco marqueteiro (por assim dizer) Garganta. Escrevi sobre isso e todo o resto da minha vida relacionada à escrita parte disso de 2013 até o presente.

Pretendo ler Lutando na Espanha e tudo o que mais tiver sobre Orwell. E esse texto é uma ligeira bagunça apenas para linkar as obras dele, disponibilizando brevemente para vocês, não deixando esse dia passar em branco.

Fotografias de George Orwell por Vernon Richards em 1946.
Romances, ensaios, artigos, poemas em inglês nesse site russo.
Algumas obras em português, grátis
Meu artigo no Academia.edu

domingo, 15 de janeiro de 2017

Journey to the centre of the earth

By horse, by rail, by land, by sea, our journey starts...
Nota: Aconselho que já ouçam o disco enquanto leem (está incorporado parágrafos abaixo), porque em algum momento desse texto conto spoilers, e gostaria que sentissem a surpresa pura que senti, como se não houvesse internet nem ninguém me indicando. Espero que sintam pelo menos um pouco do que senti, pois já será muito.

Domingo (8 do corrente) estava de bobeira vendo coisas guardadas no quartinho aqui de casa e fui mexer nos vinis, buscando encontrar algo interessante que ainda não tinha visto desde que os ganhamos. Achei uma capa amarela que indicava ser a trilha sonora de um filme e tinha alguns clássicos do rock. Abri o disco por curiosidade e percebi que o conteúdo nada tinha a ver com a capa: li Rick Wakeman - journey to the centre of the earth.

Rick Wakeman em The Battle, uma das partes favoritas

Para quem não sabe, Rick Wakeman esteve e saiu da banda de rock progressivo Yes como tecladista várias vezes, e é um músico erudito de qualidade indizível. Quando comecei a ouvir Yes, foi na época que comecei a ler George Orwell. Em 1984 fizeram um filme de Nineteen Eighty-Four com o John Hurt como Winston Smith, e eu, por ter gostado do filme, quando vi que Rick Wakeman fez sua trilha sonora, baixei. Mas ficou por aí, e esqueci da discografia dele.

Acontece que comecei 2017 decidida a ouvir mais rock progressivo, ainda mais porque vi o Lineu sentindo a pulsação do baixo de Roundabout. E ouvir Yes depois de tanto tempo me fez lembrar de que passei a ouvir a banda a partir do filme Buffalo '66, que tem uma das cenas finais com música do mesmo disco, Heart of the sunrise. Falei desse filme na última postagem. Pois bem: era um terceiro sinal de que eu estava no caminho certo.

Desci as escadas e botei o disco na vitrola, rezando para não ter arranhões, porque casa de ferreiro, espeto de pau: trabalho em museu, mas minha casa é uma bagunça, e o disco esteve por anos mal armazenado. O disco começa com aplausos. Depois uma voz suave de Gary Pickford-Hopkins, acompanhado de Ashley Holt, que acabo de descobrir ser integrante de uma banda que desconheço, Warhorse.


Vou deixar o disco aqui pra vocês, é curto demais, não dá metade do caminho para meu trabalho. Cada lado do disco são duas músicas: The Journey, Recollection, The Battle e The Forest. Journey to the centre of the earth é uma história daquele que inspirou Santos Dumont para concretizar seu sonho de voar: Jules Verne. Escrita em 1864, tem como narrador nesse fabuloso disco, ninguém menos que David Hemmings, o homem com uma voz tão deliciosa quanto a de Stephen Fry, o homem que foi papel principal no já falado Profondo Rosso, um ano depois. Aquele filme de terror favorito com trilha sonora de Goblin.

David Hemmings em Profondo Rosso (1975)

Como diria Fausto (Silva), quem sabe faz ao vivo! E foi isso mesmo que Rick e seus talentosos camaradas fizeram: com orçamento baixo, só conseguiram apoio da gravadora gravando o disco num concerto pago ao vivo com a Orquestra Sinfônica de Londres no Royal Festival Hall, em 18 de janeiro de 1974.

Descobri que a chefia lá no museu não só tem esse vinil, como contava para a filha, quando pequena, a história de Verne mostrando o encarte do CD, que o marido também tinha. Olha, vou ser sincera com vocês: já baixei esse livro em 3 idiomas diferentes (mal falo inglês, quero me meter com o francês, assim, na marra). Tenho, além do vinil, o disco no meu celular e de domingo pra cá ouvi pelo menos 2 vezes por dia. Já dancei com a minha gata, minha mãe já dançou, já recitei e cantei (nunca canto, sabe). Já dancei no ponto de ônibus. Quando vi que acabava também em aplausos, quase aplaudi e chorei junto.

Agora esse parágrafo pode conter algum spoiler, e vai em especial para a Mia, mesmo que ela não se interesse pelo disco:
  • Em The Forest há um trecho de In the Hall of the Mountain King, de Peer Gynt, do Edvard Grieg, baseada na obra de Ibsen. (Também posso ou não ter começado a ouvir as 2 suites pelo menos 2 vezes ao dia);
  • No ano seguinte, 1975, teve o filme (que ainda não vi) Lisztomania, com trilha sonora e participação dele mesmo (Rick);
  • Ele teve a magnânima ideia de fazer discos progressivos (e que discografia!) contando histórias a partir do momento em que seu pai o levou para ver Pedro e o Lobo, de Prokofiev.

Liszt. E Prokofiev. E Orwell (1984). E Grieg. E Verne.

Não sei vocês, mas entrei numa jornada que não tem volta.

Jules Verne: Voyage au centre de la terre (francês) (inglês) - ebook grátis na Amazon.
Julio Verne: Viagem ao centro da terra (português, adaptado).
Mais de Jules Verne grátis.
Rick Wakeman: Journey to de centre of the earth - live performance with the Philharmonic Orchestra in 1975.