domingo, 19 de novembro de 2017

4. Senhor cidadão

giphy
2017 foi um ano imprevisível para meu coração, inacreditável para a minha mente. Nunca pensei que fosse acontecer o que aconteceu, que sentiria tanto assim, e que existam tantos "cômodos" em minha cabeça. O cérebro é um universo, e o coração um oceano tormentoso.

Por sorte, tive forças que me surpreendem toda vez que paro para pensar no assunto, e companhia de amizades antigas e novas, coisa que também não previ para este ano. Foi tudo tão intenso que dias pareceram durar semanas, mesmo que as semanas, em certos momentos, tenham voado como se fossem dias. Senti coisas por cinco anos, e só se passaram cinco meses.

Falta mais de um mês para a chegada de 2018, e não sou tão favorável assim a retrospectivas, mas não tem como não parar cinco minutos do dia e pensar caralho, como foi que isso aconteceu? Foram meses tempestuosos, com um prelúdio já no primeiro mês, clímax ali no meio, no inverno, e um desanuviar por agora, porém ainda em meio a tempestade.

Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais. É algo que não dá para fazer muito esforço para prevenir: cada um com seu cada qual e vou respeitando decisões alheias, porque a idade vem chegando e com ela a necessidade de fazer escolhas, determinar prioridades. Minha prioridade é viver minha vida como acredito que seja correto, porque ela é uma só, independente do que filosofias e religiões afirmem. Não é possível parar de viver a vida que a gente tem para viver a de outrem (salvo situações específicas e extremas, ou seja, estou falando só do meu caso mesmo).

Então estou aqui estudando, frustrada com um tcc que sairá em dez dias, praguejando contra o mundo, mas principalmente comigo mesma por ser tão desorganizada e procrastinadora. No trabalho cada dia é uma odisseia; me desespero, mas sou apaixonada por emoção, dramas, aventura, coisas novas (sim, museu tem tudo isso: "quem vive de passado" tem muito o que fazer, muito em que pensar e até muita diversão - sim, estou falando com você, você mesmo que utiliza a frase quem vive de passado é museu, você vai morrer antes do natal).  Na vida pessoal, um a mistura de notas do subsolo, músicas tristes, poesia, dengo, ummagumma e até um pouquinho do que se pode dizer de relevante sobre Bukowski. Mas é aquela coisa: viver cansa.

E que bom que cansa. Quando não faço nada, eu durmo mal. Preciso gastar as energias de dia para ter motivos para dormir à noite. É a mesma coisa na vida: ela precisa acontecer. E acontecer em diversos caminhos, concomitantemente. Porque se alguma coisa vai mal, outra coisa deve ir bem, para equilibrar. Para distrair, para dar esperanças, porque senão tudo vira frustração e desespero. Mesmo para mim, que estou desesperada todos os dias, até dormindo.

Parênteses: essa tarde mesmo, não estava fazendo nada e dormi mal; sonhei sobre um autor que falava da miséria humana no sentido filosófico, com um aluno meu falando sobre racismo e com um mendigo aparecendo em determinado espaço. Acho que o sonho nada tem a ver com o texto, mas achei um sonho pesado demais para um cochilo de sábado à tarde. Eu só queria descansar, sabe, e dormir muitas vezes me cansa. Dormir significa que vou mais uma vez entrar num trem, ônibus, metrô, avião ou carro. Que vou andar por plataformas e estações. Que vou trabalhar. Então tenho hora extra dormindo, não sei o que é sonhar com o nada mais. Meus sonhos são urbanos, conturbados, atarefados, arquitetônicos. Fecha parênteses.

Esses tantos acontecimentos amorteceram desgostos e pude seguir minha vida com certa paz. Fui racional e fria quando e com quem pensei que nunca seria, me senti uma mulher arretada demais. Fui emocional e calorosa quando e com quem nem pensei que daria mais tempo de ser, e me senti uma mulher indefesa demais. Foi um Deus-nos-acuda, fui Inaurafui Compadecida. Fui também indiferente. Mas sempre comovendo-me por excesso, por natureza e por ofício. Porque acho medonho alguém viver sem paixões.

Então hoje completo o quarto dia do desafio de 30 dias de música. Esse ano está tão confuso que nem tenho achado ruim lembrar de alguém com músicas que amo. E eu amo tanto esse artista (também a pessoa, mas isso é irrelevante), que nem lembrando de quem preferiu me esquecer, essa música fica ruim. Pelo contrário: ela é ainda mais forte e poderosa, e só se auto afirma, dado os acontecimentos recentes.


Se o caso é chorar, me recuso. Prefiro me defender com esse julgamento/questionamento maravilhoso, tropicalista, justo, que diz muito sobre todo aquele cidadão opressor: o político, o da elite, burguês e pequeno burguês, o chefe, seja o de fábrica, de empresa ou de família; coronéis saruê, o porco, o cão, a ovelha orwellianos. E, por falar em ovelha, continuo sendo, com muito orgulho (e às vezes com dor) a ovelha negra da família.

4. a song that reminds you of someone you would rather forget about (uma música que te lembra de alguém que você prefere esquecer)



Senhor cidadão
Me diga, por quê
Você anda tão triste?
Não pode ter nenhum amigo
Na briga eterna do teu mundo
Tem que ferir ou ser ferido
O cidadão, que vida amarga

* Confira minha lista do 30 day music challenge

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

3. La belle de jour

Luis Buñuel - Belle de jour, 1967.
A gente possui certezas que, conforme o tempo passa, se tornam incertas. Acreditei por semanas que postaria Going to California, do Led Zeppelin, porque me lembra um dia específico em que fui à praia. Contudo, a companhia hoje me traz lembranças desconfortáveis porque houve (mais de) um grave rompimento familiar.
I think I might be sinking
Throw me a line if I reach it in time
I'll meet you up there where the path
Runs straight and high
Então hoje estou recordando, remoendo, com remorso de certas coisas do passado (que nada têm a ver com questões familiares porque, afinal, parente é serpente), e consegui ficar pior ainda ouvindo Alceu. O Alceu, que é a alegria de todos os artistas vivos que adoro e que são do nordeste. Não que seja uma surpresa, Anunciação sempre me deixou cair num poço incrível de existencialismo desde minhas épocas de catequese, quando entoava com a criançada (que eu detestava) essa música (que eu amo).

Não é Anunciação que me lembra do verão. Já já eu digo qual é, porque tem outras coisas a serem ditas na frente.

Esta cidade teve seus bons momentos (até as últimas eleições), que não aproveitei tão bem assim, porque quando o presente acontece a gente tem muita folga e deixa tudo pra depois; como diria Sua Mãe, eu estava entorpecido com outras paixões e ainda era imaturo para me jogar. Mas se teve algo que aproveitei 99% foi o Alceu.

Teve Alceu no Sesc Itaquera. Bem na hora de eu sair de casa lembro que choveu bastante, era domingo e eu disse Berenice, segura, nós vamos bater., e me lembro de chegar ao final de Cavalo de Pau. Foi maravilhoso dançar na lama num final de tarde, dançar até o pagode russo, porque na dança do cossaco não fica cossaco fora. Isso foi março. O ano correu de uma maneira que parecia bom, mas tava ruim, e parece que piorou. 2015 foi complicado, não é mesmo?
Teu coração tá batendo
Como quem diz:
"Não tem jeito!"
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito
Então teve o Bloco Maluco Beleza no Parque Ibirapuera em janeiro. Um calor de rachar. Fafá de Belém cantando Vermelho até em versão Maracatu (spoiler: todas as versões são iguais, você só está bêbado) no trio de Alceu, fingindo que não havia votado em Aécio. Muito calor, muita gente pulando e bebendo e eu sóbria pois garrafa de vidro infelizmente não pode e eu sou enjoada e odeio cerveja. Odeio multidão, mas amo Alceu, fiquei pistola mas foi maravilhoso. Pena que. Tem coisas que a gente parece que saiu de um livro do Dostoievski e fica imaginando desculpas pessimistas para não agir. Momentos. Remorsos. Ai, Jesus.
Conclusão final, senhores: é melhor não fazer nada! É melhor a inércia consciente! Pois, então, viva o subsolo! Apesar de eu ter dito que invejo o homem normal até a minha última gota de fel, nas condições em que o vejo, não quero ser ele. (Embora não pare de invejá-lo; não, não, o subsolo, em todo caso, é mais vantajoso!) Ao menos, lá é possível... Ah! Estou mentindo agora também!
Daí teve Alceu no meu bairro mesmo. No meu bairro não tem nada, é tão periferia que luz elétrica da AES lá em casa só foi existir em 2015; que não há museu, centro cultural, biblioteca pública ou registro histórico para os ocupantes saberem quem são, de onde vêm e nem podem pensar para onde vão. Mas tem escolas públicas e um CEU. Pois foi nesse CEU que consegui levar mamãe pra ver Alceu. Dessa vez não foi nem grande show, nem trio elétrico; foi mais ou menos um acústico, com o mesmo script, mas parecia até novidade. Foi lindo e íntimo demais. Era frio, era junho de 2016. Um ano também complicado, obtuso. Triste.

Enfim, dos meus três momentos ouvindo os repentes de Alceu e as piadas sobre a música da muriçoca, em todos eles, não importando a estação do ano e as condições climáticas, eu lembro da moça bonita da praia de Boa Viagem. Essa música me dá uma coisa. Acho que o azul em que a Belle de Jour viajava é o azul em que me perdi e tenho me afundado. Para quem fala inglês, parece que o azul é um estado de espírito. Aqui temos a segunda-feira cinzenta, lá eles têm blue mondays. Hoje é segunda né. Tô triste. A frieza do azul me gela quando ouço essa música, inspirada num filme de Buñuel. Mas, ao mesmo tempo, o azul é a cor mais quente (não é só o filme não, é a física que diz) e queima meu peito e fica esse sentimento estranho e profundo dentro de mim.

Portanto, não podia ser outra senão essa, ainda mais nas atuais circunstâncias. E tomara, meu Deus, tomara! que em Pernambuco eu termine meu 2017.

3. a song that reminds you of summertime (uma música que te lembra o verão)


La Belle de Jour
Era a moça mais linda
De toda a cidade
E foi justamente pra ela
Que eu escrevi o meu primeiro blues

* Confira minha lista do 30 day music challenge

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

27. Iracema

Costumo dizer que odeio São Paulo. Pois é. Nem sempre. Gosto do que São Paulo foi, e do que poderia ter sido (infelizmente sempre prefiro o que poderia ter sido do que o que é, isto causa muita dor). Gosto da São Paulo dos (i)migrantes. Do centro histórico, das atividades culturais (nem todas, mas cada um com seu cada qual), de edifícios históricos, mesmo aqueles de arquitetura fascista. Das periferias, favelas. Do Brás.

Ouvir a voz rouca e rasgada do Adoniran é amar São Paulo. É chorar São Paulo. Não pelos paulistânos e paulistas "tradicionais", quatrocentões, de modo algum. Mas pelo trabalhador que construiu a cidade, que levantou-a do barro e que, de um lugar inacessível e inóspito, a fez centro econômico e metrópole que acolhe diariamente milhões de pessoas de todos os cantos do mundo. Seria lindo, se não fosse trágico. Trágico, porque há xenofobia e mixofilia. Desigualdade social, econômica, e por aí vai.

Não posso dizer "mas vamos falar de coisa boa!", porque o post é mesmo trágico. É a história de Iracema, é a música que me parte o coração.

27. a song that breaks your heart (uma música que parte seu coração)


De vez em quando, geralmente quando estou triste, minha playlist (antes de me interessar pelo post-punk britânico) certamente tem Nelson Gonçalves, Bezerra da Silva e Adoniran Barbosa.

Mamãe sempre cantou o trem das onze, e até vivo como os moradores do Jaçanã que não podiam perder o tal do trem das onze, o último da noite. Porque moro em periferia, distante de tudo. Tanto, que teve um dia, curiosamente dia em que vi ao vivo Demônios da Garoa, que chorei Iracema, sorri e apertei a mão de Dedé Paraízo, que cheguei com mamãe bem depois das onze no terminal de ônibus, e só amanhã de manhã (sorte que tinha o tal do uber e a casa de um amigo próximo, com festa; regalias que não existiam em meados do século XX). Além de morar longe e correr o risco de perder o último transporte da noite, ainda passo todos os dias mais ou menos pelo caminho do antigo trem, entre trabalho e escola, que subia do Tamanduateí para Guarulhos, e passava pelo Carandiru - e Jaçanã.

Voltando à Iracema. Me senti Adoniran quando ouvia os Demônios e chorei, eu chorei de dor porque, bem, a vida não é lá essas coisas que a gente acredita na juventude. Ainda tenho abissal dificuldade em dizer meus sentimentos, então recorro às artes audiovisuais e textuais. Me mascarando em coisas já ditas, me sinto protegida, porque qualquer coisa eu digo que não sou eu, é a música que está falando, olha só. É aquele texto com referências e ABNT. Eu apenas concordo, não quer dizer que eu sinta, ou que eu seja. Mas é: eu sou tudo isso sim, apenas covarde e pequena.

Me senti Adoniran, porque Iracema, eu nunca mais eu te vi. Porque Iracema, eu perdi o seu retrato.

Não sei se é assim com vocês, mas enquanto me lembro de datas, e associo  com cré, minha memória visual é bem comprometida. Tudo me lembro atrás de nuvens, mesmo que tenha acontecido uma hora atrás. E me forço a lembrar revivendo momentos. É até interessante essa parte, porque me lembro das aulas da professora Sandra e ela explicava sobre temporalidade, testemunhos, etc.

Lembro de algo como que a memória se confunde muito com a imaginação. E como as lembranças são efêmeras, para compôr uma linha do tempo decente nosso cérebro vai inventando o que perdeu de informação. É como um restauro mental: fica parecido com o que foi, mas já não é mais. Até o momento em que o frágil papel da memória se dilui e tudo o que se tem é o material enxertado, posterior, não original.

Quando ouço de lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos, Iracema, eu perdi o seu retrato, me sinto o noivo de Iracema, faltando vinte dias para o nosso casamento, naquela confusão do público em volta do corpo outrora pinchado no chão da avenida São João, recolhendo suas meias e seus sapatos. Naquela época registros fotográficos não eram como hoje. Uma fotografia era cara. Mas Iracema se manteve viva no coração de seu noivo e na música de Adoniran Barbosa.

Avenida São João, déc. 1950.
Por que essa música é tão importante? Porque como zelo pela memória, levo muito da minha profissão para minha vida pessoal. Então Iracema não só morreu. Morreu também sua imagem, a da fotografia perdida. Futuramente, não haverá nenhum testemunho da história de Iracema, de tantas Iracemas. E saber que isso é tão completamente possível, dá um aperto no peito e real vontade de chorar. Então, assim como o noivo de Iracema, nos apegamos às meias e aos sapatos, para ao menos fingir que a pessoa está ali, conosco.

Há uma questão que professora Sandra também dizia nas aulas. "Uma árvore caiu no meio de uma floresta. Ninguém viu. A árvore caiu?" - como dizer que sim, se ninguém viu? Que árvore? Que floresta? Se ninguém viu, não aconteceu. Então, tem também tem essa citação que encontrei num livro da biblioteca do museu:
No México existe a crença de que cada pessoa morre três vezes:
A primeira é no momento em qua suas funções vitais cessam.
A segunda é quando o seu corpo é colocado na tumba.
A terceira acontece em algum momento no futuro, no qual o nome do falecido é pronunciado pela última vez.
Aí então a pessoa realmente morre.
Ted Klein para a Roots Web Review. (apud. REZZUTTI, 2013, p.267)
Parece um texto sobre morte. Mas não somente. É sobre perdas, sobre momentos findos, tempos que não voltam mais. Sobre não ter o timing. Não aproveitar o presente, ou querer tanto aproveitar todo o presente que a profundidade dele é pouca e se anuvia facilmente. A São Paulo que não é, a Iracema que foi minha, e nem o retrato dela tenho mais. O caminho que estava traçado e foi riscado. A não preservação de indícios, o desconhecimento da História. A memória que falha, a imaginação que confunde, a expectativa que se cria, a decepção que chega a galope (e é culpa do que expecta). O abandono, Iracema, meu grande amor foi embora.





Mamãe e eu, Dedé Paraizo e os Demônios da Garoa.

* Este post faz parte do 30 day music challenge. Leia mais.

domingo, 22 de outubro de 2017

Backups #1

Depois de 11 anos na frente do computador, decidi que odeio redes sociais. Então o facebook tem o famigerado on this day, e até que não fomos pessoas tão vergonhosas no passado. Tem dia. Vou reproduzir aqui algumas coisas que não me arrependo de ter postado, para a posteridade. Porque até o fim do ano que vem crio coragem para apagar mais esta conta.

Começo pelo bônus, porque a melhor ilustração deste post vem dele.

21 de outubro de 2015.

[ B o n u s ] Essa pintura merece destaque, por n motivos.

Eugene de Blaas - O flerte, 1903.
22 de outubro de 2015.

Minha época favorita de Tom and Jerry é sob direção de Gene Deitch (1960-62) na Praga da então Tchecoslováquia, e produção da MGM. Você reconhece a época pelas caras e bocas do gato e do rato, o homem sempre tem um olhar severo e se irrita facilmente, assim como o dono de Tom, que noutros episódios busca pescar, relaxar com um café, ou algo assim. Amo os movimentos, cores, música, dublagem. Meu episódio favorito é Buddies Thicker Than Water, de 1962.
Acho o Gene de uma vanguarda total, diria até de uma psicodelia admirável. Hoje de tarde me lembrei de Bizet, e desse clássico a seguir:

 

***

Marquei como lido "A casa dos budas ditosos".

***

As 19 Rapsódias Húngaras de Liszt

22 de outubro de 2013.

Estava ouvindo Syd Barret - Mek Weg!

***

Dorris McComics

***

Antonio Gramsci - Escritos políticos vol 2. II. A questão meridional: 1926. p. 415
22 de outubro de 2011.

O cabelo absurdamente lindo e a vida parecia resolvida. Doce ilusão dos 19 anos.
***
Nininha com 4 anos e as orelhas inteiras (agora tem 10 anos e uma orelha murcha)
22 de outubro de 2017.

Hoje em dia esse tipo de coisa faz sentido em minha vida, estou só aqui bebendo, cheirando incensos e pagando contas.

sábado, 14 de outubro de 2017

28. C'est la vie

Krzysztof Kieślowski - La double vie de Veronique, 1991.
Tenho costume de usar termos estrangeiros em algumas conversas. Não que eu seja fluente na língua - por exemplo, não sei latim, mas já soltei um ipsis litteris no meio de um seminário, de nervoso -, ou seja empreendedora™ que solta um startup, follow up, feedback, new car, caviar, four star daydream, think I'll buy me a football team, I'm all right, Jack, keep your hands off of my stack. Não, longe de mim. Mas às vezes a gente solta um je ne sais quoi, um c'est la vie... Porque, bem... c'est la vie...

Então usei o último termo do parágrafo anterior em uma conversa e me lembrei de Emerson Lake & Palmer, uma de minhas bandas favoritas de rock progressivo, que me lembra as trilhas sonoras de Peanuts [1] e Tom & Jerry [2] (lembrando que meus episódios favoritos são os polêmicos ilustrados por Gene Deitch), e de Inferno, do Dario Argento. O Keith Emerson é (foi) um tão excelente musicista, e com um som tão específico, que até a leiga aqui em teoria musical sabe muito bem distinguir quando o piano está sendo tocado por ele.

Enfim, esses dois parágrafos confusos só existem para introduzir a música Money, do Pink Floyd, e o que vem a seguir. Estou tentando montar meu 30 day music challenge, e hoje respondo o dia:

28. a song by an artist with a voice that you love (uma música por um artista com uma voz que você ama)

Greg Lake. Poderia ser Ian Gillan, mas... Greg Lake. Ele é o L de ELP, o Lake de Emerson Lake & Palmer. E o segundo dos que se foram (só Carl Palmer, o baterista, está vivo).

Obviamente a música não poderia ser outra:

Like the sea
There's a love to deep to show
Took a storm before my love
Flowed for you
C'est la vie
E, para comprovar o que estou dizendo, caso a estrofe acima não tenha tocado o seu cuoração, tem também essa abaixo. Porque Greg foi o primeiro vocalista (e baixista, isso é muito importante) da banda King Crimson, mais conhecida por ter um cangaceiro na capa (mentira, é um Coringa, mas não custa nada sonhar) de um de seus discos e/ou por ter zero discos disponibilizados no youtube porque o Robert Fripp não colabora. Então, como o Fripp não colabora, admiráveis fãs isolaram a voz de Greg na música Epitaph, do primeiro disco, In the court of the crimson king, de 1968, que é, inclusive, um dos meus dez discos favoritos de toda a vida, e um dos classicões do famigerado prog.

Knowledge is a deadly friend
If no one sets the rules
The fate of all mankind I see
Is in the hands of fools
* Já postei o dia 01 do desafio.
[1]. A Charlie Brown christmas, de 1965, tem música composta pelo pianista de jazz Vincent Guaraldi.
[2]. Saturday evening puss, de 1950, é um episódio dirigido e escrito por Hanna-Barbera, e a música composta pelo pianista Scott Bradley.

domingo, 1 de outubro de 2017

Bright and dark sides

Gustave Caillebotte - Rue de Paris, temps de pluie, 1877
Me baseei nesse texto da Gabriela para criar uma lista de coisas gostosas que animam meus dias. Porque há dias tão intensamente tempestuosos que simplesmente nublam qualquer possibilidade de boa atividade, me fazendo não enxergar alternativas e fazendo chover em minha cabeça. Não vou elencar tudo, infelizmente. Mas, para me lembrar melhor dos momentos, é bom pensar em rotina, em horários. Eis aqui meu lado brilhante da vida:


Gosto de me espreguiçar pelas manhãs, antes de levantar da cama. Parece que antes disso sou uma pilha de ossos desmontados. (Vocês - pelo amor de Deus - já assistiram Funny Bones?)


Sou apaixonada por rostos que acabaram de acordar, inclusive o meu. Uma pessoa que acabou de acordar, com o cabelo assanhado, a cara de "onde estou, quem sou eu, o que está acontecendo?", as olheiras vermelhas (eu adoro olheiras, sabe; e ainda bem, porque nasci com elas), a voz rouca, a preguiça, a desorientação e, no meu caso, o silêncio. Não interessa se estou de bom ou mau humor, eu de manhã falo muito, muito pouco, quase nada.

Cafuné!

Café!

Ir para lugares ouvindo música e prestando atenção na paisagem. Quando é um caminho que gosto muito e a distância se mede temporalmente em mais de uma hora, com certeza estarei ouvindo o disco Live at Pompeii, do Pink Floyd. Também adoro ligar o som e dar um cochilo, dependendo do horário, e se estou sentada no ônibus.

Dar bom dia a desconhecidos. Sorrir para eles, sabendo que essa é a única vez na vida que nos encontramos, provavelmente, e cordialmente trocamos coisas boas num gesto simples, rápido e indolor. Quando acontece de nos revermos, de nos reconhecermos, é melhor ainda. É uma amizade sem nome e sem compromisso nenhum.

Andar e observar - de novo - a paisagem. A arquitetura das casas, o modo de viver dos bairros, sentir o vento e ouvir os passos. Dar oi pro gato naquela garagem, sentir medo do gnomo daquele jardim, fotografar aquela flor e querer saber a cor da tinta daquela parede. Tenho o costume, desde sempre, de observar casas e apartamentos, fragmentos internos, e imaginar toda uma vida. O que o marido está assistindo, o que a mulher está fazendo, os gostos dos filhos, os empregos, preocupações e motivações de vida de cada um (como pessimista e intolerante a padrões que lê Buk e Dosto e ouve Raulzito, eu acho essa rotina toda um saco - mas esse jogo de adivinhação é uma delícia).

Bares. Não botecos-boutiques da Vila Madalena (Vila Madá para os paulistânos, mêo), mas os bares verdadeiros, com caixas de cerveja empilhadas, prateleiras tortas e garrafas diversas com conteúdos também diversos e às vezes sem rótulo, um balcão, o dono e um freguês, uma televisão com futebol, noticiário ou uma conversa. Um comentário. E, neste momento, meus amigos, que se exploda o politicamente correto. A simplicidade, crueza e ebriedade de um bar para mim é a mais pura poesia e humanidade. Mesmo que... não, não interessa o assunto e a opinião.

Atravessei a rua, entrei numa bodega.
- Faz o obséquio de me dar um pouco de aguardente?
O homem da venda trouxe a garrafa, pôs-se a despejá-la num copo sujo.
Como eu não o interrompesse, derramou a bebida com sovinice.
- Quer que encha?
- Vá botando.
- Ah! bom. É o que se leva deste mundo, opinou entregando-me o copo cheio.
Sentei-me e comecei a beber, olhando a casa fronteira, o pensamento espalhado.


Aquele momento que fico tão completamente empolgada que gaguejo, balanço os braços, digo as coisas todas na ordem errada e quem me ouve dá risadinhas. O mesmo quando eu sou a ouvinte. Tipo cena de insight de filme de mistérios e aventura, onde dois personagens perambulam pela sala com cara de interrogação, simultaneamente lhes aparece a exclamação e, por algum motivo, possuem uma fala sincronizada de eureka tão ou menos inexplicável que um musical com toda a cidade desconhecida entre si dançando e cantando do mesmo jeito. Amo (só não amo musicais). (p.s.: os vídeos a seguir possuem spoilers)


Minha linha de pensamento é idêntica a do Todd e kkkkk adoro esses filmes bestas do Nick Cage

Café novamente! Mas não o simples ato de bebê-lo. É esperar um dia inteiro pelo café da tarde e ter o prazer de ouvir a água quente jorrando por cima do pó, fazendo subir um aroma indescritível de paz. Café com mamãe e biscoitos da casa do norte, café sozinha com anotações em minha caderneta e suspiros apaixonados ou preocupados, café na pausa do trabalho com causos e uma boa prosa, café para aguentar as próximas oito horas, para me inspirar, me motivar, lembrar que a vida não é só problemas. Café.

fonte. russa, é claro
Cheirar gatinhos. ... Literalmente: pegar as gatas aqui de casa e dar um chêro e fazer carinho até ronronarem e ficarem doidas se esfregando, abraçando, lambendo, arranhando, dando chutes e correndo para se esconder e pular na minha perna, brincando. Carinho gatos a qualquer hora e em qualquer lugar. Queria ter essa habilidade de brincar com cachorros, tadinhos. Tenho duas e não dou a atenção merecida (... voltemos à parte boa).

Comer salada de frutas. Mas pelo amor de Deus, sem leite condensado, isso é criminoso. Salada de frutas é com frutas e o único líquido deve vir da maior fruta de todas, que é o suco de laranja. E só. Amo muitas comidas mas essa é aquela que a gente ama tanto que esquece de mastigar direito e quase se engasga e quer enfiar na cara (talvez eu seja uma comedora aflita, não façam isso em casa).

Dormir ao som da chuva, ventania, sapos, grilos, ou cães latindo ao longe. Dormir de cansaço e nem sonhar (eu sonho muito, não aguento mais).

E a mais novíssima melhor sensação de todas do momento: ir dormir com essa trilha sonora, in a specific way. Is such a heavenly way to sleep.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O tempo, o que queremos e o que fazemos dele

Ker-Xavier Roussel - Les Saisons de la vie, 1892
Hoje reli A Cartomante, e sinto ter pensado nessa história por algum motivo na metade do caminho entre casa de papai e trabalho. Aqueles pensamentos que aparecem do nada em nossa cabeça como o demônio Pazuzu em O Exorcista, ou as propagandas da Jequiti no SBT.

Mas não foi por apenas ter me lembrado de Machado de Assis que reli essa história - que adoro. Foi porque me sentei no ônibus ao lado de um senhor muito atrevido (não uso esta palavra nem no bom, nem no mau sentido).

Pois atreveu-se a interromper minhas músicas e comentar sobre o sol extremamente quente, que ele é feirante e aguenta, tudo bem. Falou de vitamina D e não ouvi, ordenou que eu tirasse o último fone de ouvido que restava. Mas não era a música que me impedia de ouvir, e sim que ele falava muito baixo (ou estou perdendo a audição). Perguntou meu nome, eu disse e ele comentou de uma rainha Helen cristã grega do século XV a.C. (seria a mulher de Menelau e amante de Paris?). "Quem me vê não dá nada por mim", disse e comentou sua religião e que até lia mãos.

Olha, eu sou bem laica quanto a religião dos outros (e a minha própria, sou católica mas nem pareço), então a questão não é sobre acreditar ou não, ou o que é certo e o que é errado. Então ouvi muito educadamente o que ele tinha a dizer sobre minha mão esquerda, e desci em meu ponto habitual, agradecendo a conversa. Experiências, uma das graças da vida.

Não vou dizer o que ele me disse, nem sobre quem. Mas me incomodou o que ele disse no sentido que explico a seguir, e que tem a ver com várias coisas no passado que me fazem pensar a vida, o universo e tudo mais.

Detesto saber do futuro. Fico ansiosa para que ele chegue, claro. Fico muito nervosa para saber o que vai acontecer sobre coisas e pessoas que quero muito bem e que quero por perto. Até passo vergonhas por conta disso, mas prefiro toda a minha angústia do que saber o que acontecerá. Até porque odeio definições vai acontecer isso, as coisas são assim, sempre foram, sempre serão. Me diga isso e lutarei com a vida para provar-te o contrário. Meu destino sou eu.

Ontem infelizmente a televisão estava ligada e tive que assistir o fantástico. Pois me apareceu um robô com inteligência artificial, e querem saber? Eu acho isso uma merda. Com o r mais arrastado que possuo de meu quase paraibanismo, eu acho isso uma m-e-r-d-a. Dez minutos de entrevista com cientistas, com o próprio robô, sobre a possibilidade de se viver duzentos anos e tomar injeções que renovem seu DNA, e como não será preciso tentar ser saudável se alimentando daquilo que a terra dá, e eu gritando dentro de minha cabeça DISTOPIA!

Deus me livre de eu viver no Admirável mundo novo. De viver duzentos anos. De ser fisica ou mentalmente eterna. Quero, sim, ser eterna: em minhas palavras, em meus estudos, em meus aprendizados, ensinamentos, bens materiais relativos a meu trabalho e sentimentos. Mas nunca quero viver para sempre. Nunca quero viver duzentos anos. O caminho da vida é a morte. E o homem busca se artificializar. Acho isso horrível. Não compreendo o dinheiro gasto com essas pesquisas. Nem com a possibilidade de se mexer em um feto para evitar certas coisas que podem nascer com ele. Porque compreendo más formações etc., mas bem sabemos que quem tem dinheiro tem poder, e se quiserem mexer num feto para mudar cor de olhos, de corpo, textura de cabelo, data de nascimento, capacidade cerebral, tudo pode acontecer. Essa parte do feto foi discussão levantada em um grupo de filosofia sobre ética.

Pois bem. Também tenho horror a máquinas do tempo. Viajar para passado ou futuro. Isso acaba com a história. Você voltar fisicamente ao passado e mudar uma cena é como derrubar uma peça de dominó em uma fileira. Criança adoraria viajar no tempo e eu só digo "que horrível!", e comento, para reflexão, sobre a cena do De Volta para o Futuro, onde Marty McFly passa a sumir da fotografia da família junto dos irmãos porque impediu, quando estando no passado, o encontro e apaixonamento de seus pais. É pesado. Claro que o mundo muitas vezes é uma bosta, mas poderia ser pior. Melhor também, mas a história é o que se ajeita aqui se bagunça ali, e assim caminha a humanidade.


oh no
Então, respeito a leitura aleatória e quase impositiva da minha mão. Mas o que faço com as informações obtidas é escolha minha, não posso julgar ninguém previamente, evitar situações porque alguém me alertou de algo muito antes de acontecer, nem ficar com isso em mente e tomar decisões a partir disso. Camilo acreditou piamente (porque queria acreditar) que estava tudo bem, porque assim disse A Cartomante. Aconselho a leitura aqui, no domínio público. São 8 páginas, para quem se importa tanto assim com quantidade de texto. Há também a maldição de Laio, pai de Édipo. Prefiro não saber e decidir o que tiver que decidir em seu devido tempo. É como signos, acredito, mas não sigo o horóscopo do dia, porque não se trata disso. Nem vivo em função disso. Não é questão de acreditar ou não naquele senhor, ou dizer que ele está errado. Até porque ele não disse para eu fazer nada. É mais dizer o que faço a partir desse ponto. E que vou fechar minhas mãos sempre que andar próxima a alguém que queira puxar assunto.

Mentira nem to com raiva, mas o Bruce Lee é lindo

“rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo”
Não posso dizer que concordo ipsis litteris pois ainda estou lendo, porém esse livro é maravilhoso. E escrito numa velocidade que considero a minha de ser.

P.S.: esse post nada tem a ver com Dr. Who. A série, por mais que não assista, é legal. E a cena do Van Gogh makes me cry (e o ator é lindo).


o modezu
P.S. 2: amo buracos negros, de minhoca, física quântica. Me indiquem textos e vídeos sobre. Adoro ficção científica também, nada me impede. Como disse, meu destino sou eu, e nesse caso meus gostos também, obviamente.

P.S. 3: falei de fones de ouvido, e de Laio. Me veio em mente esta música. Coincidência? Acho que não.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ainda tenho em mim todo o sentimento do mundo

Henri de Toulouse-Lautrec - The Hangover (Suzanne Valadon), 1888.
Achei que não gostava de poesia. Achei que odiava poesia. Mas conheci Neruda. Conheci Pessoa. Até aí tudo bem. Contudo, conheci Leminski e pensei: "nossa, que cara chato".

Então tem o Graciliano. Nordestino como meus pais, tios e avós. E o alagoano que se filiou ao PCB há 72 anos disse em suas Memórias do cárcere:
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.
Essa frase desse não-poeta está tatuada em minha alma. Porque sou e estou apaixonada, todos os dias, no bom e no mau sentido da palavra. No sentido de Camões.

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


E parece-me que a poesia só surte efeito quando você está dentro dela, vivendo-a, com o peito rasgado, ferido, e a cabeça quente, fervendo, derretendo, escurecendo as vistas.

Então hoje (23 de agosto) o almoço na fundação para a qual trabalho foi temático. As crianças assistidas pela fundação, e em parte pelo museu da fundação (sou mais ou menos professora, quando nunca, depois de grande, quis ser, e ainda bem que bebi dessa água que não beberia), fizeram trabalhos comoventes sobre a região Sul do país. A comida também fazia questão de lembrar o cotidiano sulista, talvez com estereótipos, mas pulemos a parte da comida do corpo direto para a comida da alma:

Estava lá, aquele que eu não aguentava mais ver estampado em páginas hipsters do facebook com seus versos burgueses paulistas mal feitos (da página, no caso, e não o artista em si), o tal do Paulo. Não só ele, mas a adaptação de sua obra em obras dos meus pequenos - que na verdade são mais altos que eu, no auge dos seus 13 anos. Além disso, seus versos, suas visões de mundo em poucas palavras, que eu, com tantas palavras ainda consigo conservar o meu silêncio e ser um mistério para mim mesma.

Releituras dos jovens

Reclamei aqui algumas vezes sobre minha dificuldade cada vez maior de expor sentimentos, que acontecia na mesma proporção em que me era cada vez mais fácil expor ideias. Um amigo disse que é porque na adolescência a gente só sabe dizer o que sente, porque só sente e pouco faz, profissionalmente falando. Na maturidade ocorre o contrário: nos dedicamos ao profissional e o sentimental vai enrijecendo, como uma máquina velha, deixada no canto para oxidar e criar teias.

Como sou uma pessoa carregada de memórias e nostalgia, e o afeto que sinto germina por essas vias, consegui reviver pedaços gostosos e dolorosos em mim neste último mês. Por ter estado apática nos últimos anos, essa re-vida foi algo apocalíptico como o Eclipse do Lado Escuro da Lua. Agora parece que abri o peito novamente, depois de um tempo mergulhado na racionalidade e nos sentimentos de rancor, culpa e pena. Por falta de costume, estou sem jeito, dolorida, cansada, desesperada, e cinco minutos depois estou serelepe, sorrindo, gargalhando - de euforia e desespero -, choramingando (porque não consigo mais - ainda - chorar direito {parece que consigo sim, de soluçar, aconteceu}), pensando, suspirando, falando sozinha.

Tanto pedi e busquei ter o coração batendo forte por tudo que faço e que me é caro, para me sentir viva, que me veio retumbar no peito algo além de minha capacidade física, algo que não cabe em 1,57 de altura, nem mesmo numa mente que se ocupa dezessete horas por dia.
Mesmo que me aperte essa sensação sem nome
Ou que me faça engolir a seco a minha sede é de...

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Esta tarde a trovoada caiu

John William Waterhouse - Miranda (the Tempest), 1916
Aconteceram umas coisas nas últimas duas horas que atormentaram completamente meus sentidos, e foi um combo de situações abstratas desagradáveis.

Há exatos dez anos morreu meu avô materno. Tive, na vida, pouco contato com ele, e ações de familiares próximos me afastavam de vovô de maneira criminosa, coisa que sempre soube, mas como era criança, não sabia me defender e/ou me impôr. Não chorei sua morte. Liguei meu mp4 em duas músicas ad infinitum por dias, noites, madrugadas: GNR - Don't cry e John Frusciante - The past recedes.

Há exato um ano aconteceu o golpe. Foi uma voadora nos peitos, né. Politicamente me abstenho de dissertar sobre, é muito desgastante. Mas é também uma lembrança ruim, não só para mim, sem dúvida.

Hoje abri uma página e vi algo que não deveria ter visto. Sim, tudo isso tem conexão, mas são coisas que não convém detalhar. O que vi se assemelhou com o que vejo no espelho todos os dias e talvez, de algum modo, eu tenha compreendido bad trips em frente ao mesmo objeto. A memória para mim é a coisa mais importante, é o que comprova a existência. Me ver possivelmente confundida em outras memórias, que não são minhas ou de mim me causou náusea e desespero (sou muito desesperada, todos os dias, mas isso doeu mais), porque se não reflito a mim mesma para quem me enxerga, ou seja, se sou confundida, se sou uma cópia, se sou um produto, se sou um padrão, o que sou eu, se não sou eu quem transpareço? Qual é o sentido de não sermos nós?

Hoje arrebentei em algo que alguém pode chamar de choro, mas não é dos meus choros habituais. Costumava chorar como um bebê, com rios de lágrimas, soluços, nariz escorrendo, bocão-de-pá escancarado, caretas. Hoje os olhos ameaçam uma parca umidade, uma semi-careta se faz, e tudo se resolve tão rápido quanto um bocejo, sem líquido algum escorrer pelos olhos. O Paulinho da Viola (composição de Max Bulhões e Milton de Oliveira) em cada palavra conseguiu descrever o que houve, o que há, o que tem para hoje. Chorei por uma música que em toda a minha vida odiei, e de repente vi que se não tinha eu ali, agora está tendo, e parece que estou gostando. Não chorei pelas palavras - que acabo de descobrir e pensar muitos palavrões, porque como é que pode ser exatamente isso? -, mas pelo primeiro acorde, porque como eu disse, odiava essa música, mas instrumental é outra coisa.

Me sinto com 15 anos novamente. O que me lembra de vovô, era essa a idade que eu tinha quando ele faleceu. Era essa a idade que eu tinha quando ouvi The past recedes como se fosse a única música existente, e o passado parece que retrocedeu. É essa música que fui bisbilhotar a letra e de repente vi uma frase 90% semelhante a uma que eu mesma criei agorinha, antes do almoço, para poder explicar em palavras e imagens o que estou sendo hoje.

Me comunico por gifs e memes. Desde o ensino médio dizem que eu sou a própria representação de um emoji/gif em forma humana, porque minhas reações são claras e exageradas. Então, como não sou poeta, pensei no seguinte: "uma gota de veneno que transforma o oceano" - e imaginei uma animação de uma gota negra caindo lentamente no infinito azul do mar, e se espalhando por todo ele. Uma animação feita pelo artista do Pink Floyd The Wall (e da animação Hercules). O oceano são todos os meus sentimentos, e uma gotinha infima de veneno (maus pensamentos) se alastra neles todos, me deixando mal; e às vezes é tao pequena a gota que nem sei o que exatamente ela é que me fez tão mal assim. Quando li The past recedes, encontrei E cada gota do mar é o oceano inteiro. A imagem, que infelizmente não tenho capacidade de criar, pode ser substituída pelo videoclipe de Welcome to the machine, com animação do próprio Gerald Scarfe.

Para quem tem mais de 20 anos, essa cena é a cara da abertura da novela A indomada

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.
O Guardador de rebanhos: IV Esta tarde a trovoada caiu
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)



I am the son / And the heir / Of a shyness that is criminally vulgar / I am the son and heir / Of nothing in particular / You shut your mouth / How can you say / I go about things the wrong way? / I am human and I need to be loved / Just like everybody else does





sexta-feira, 25 de agosto de 2017

1. Green is the colour

Depois do almoço, costumo subir e voltar ao computador, para fazer vários nadas ou me concentrar em pesquisa e afins. Hoje quis um pouco aproveitar o sol, que há dias não aparecia tão gostoso e preguiçoso. Afinal, hoje é sexta-feira, vamos descansar um pouquinho, né?

O museu em que trabalho possui um belíssimo e bem cuidado jardim (principalmente graças ao jardineiro que cumprimento sempre, e que possui um sorriso maior que o meu), com bancos, pé de jasmim-manga, hermas dos fundadores da instituição, camélias, rosas, alguns gatos fugídios, senecio prateado, sabiá laranjeira, e o amor da minha vida de historiadora e brasileira: um pau-brasil de mais de vinte anos de idade.

Já demos aulas sobre a "evolução" da moeda de troca no Brasil, onde lembramos que uma de nossas primeiras foi justamente o pau-brasil. De troca, de exploração, são tantas questões históricas. Mas o que me fez tocar nesse assunto não foi a questão histórica a ser discutida (evito a palavra "problematizar", ela própria é um problema), e sim a possibilidade de dar aulas sobre um Brasil de quinhentos anos, e poder descer as escadarias de um edifício de quase 121 com os adolescentes e dizer: "olhem, isso é um pau-brasil".

Uma publicação compartilhada por Helen Araújo (@centralheaven) em

Ele fica na parte central da ala direita do jardim, por assim dizer. Encostadas nos muros com hera estão outras árvores com florezinhas e frutos, e dá para ouvir muitos passarinhos pra lá e pra cá. Se tem algo que considero minha religião é o silêncio e/ou os sons da natureza e a brisa tornando tudo vivo e não-parado, coisas que combinam muito com meu jeito de ser, já que sou uma pessoa que tem pavor do que é eterno, imutável, paralisado.

Tomei um pouco de sol, fiz umas fotografias, subi para meu posto e comigo subiu o cheiro de canela, que me lembrou momentos que bem sabemos serem aqueles que nos deixam escapar um sorriso involuntário, meio de canto. Abrindo as portas, ouvi um som em flauta doce que precisei perguntar o título da música para a menininha que subia com sua flauta na mão e o professor atrás: "ovelha de maria". "Ok, muito obrigada!" Outros, ainda, arriscavam Asa Branca.

Agora os pequenos estão ali em frente tocando "debaixo dos caracois de seus cabelos". Não gosto de Roberto Carlos (praticamente o detesto), mas existem canções que também involuntariamente mexem com a gente. Me lembro dos cachinhos da minha irmã, quando ela tinha seus 3, 4 anos, e o sorriso sapeca naquele rosto gordinho mais fofo do mundo. E nós com nosso binóculo amarelo observando as aves de rapina nos eucaliptos atrás de casa. A vida não dava pistas de como seria 15 anos depois. Quinze anos...

Enfim. O post não deveria ser tornar o que será visto no parágrafo seguinte. Mas observei as imagens, e pensei: por que não? Há meses quero iniciar o desafio dos 30 dias com música - que já adianto, não serão 30 dias corridos. Então o primeiro desafio é:

1. a song you like with a color in the title (uma música que você gosta com uma cor no título)


Green is the colour of her kind
Quickness of the eye deceives the mind





segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Paint it, black

Num dia muito querido e especial, no fim de uma semana terrível, sonhei que eu morria.

Estava em alguma estação de metrô, esperando na plataforma de frente para onde estaciona a última porta do último vagão. Algo acontecia que eu devia me abaixar, junto com os usuários que me acompanhavam, para não bater a cabeça em uns ferros que vinham em alta velocidade junto com o trem, como se fosse a brincadeira de "vivo ou morto", a mesma lógica.

Assim como no jogo, a gente às vezes erra e morre onde era para viver, ou vive onde era para morrer. Eu morri.

O ferro furou meu crânio e esmagou meu cérebro, não senti dor. Senti o sangue negro escorrendo dentro da minha cabeça, pintando minha visão de preto de uma maneira muito tranquila, onde eu percebia que estava morrendo e não sentia que ia cair, mas me sentia flutuar, como se apenas a minha consciência pairasse sobre o cenário e o corpo não fosse mais nada.

O início dessa música ilustra o líquido escorrendo e pintando tudo de preto. A letra, ilustra meu mês de agosto. Paint it, black.
I look inside myself and see my heart is black
I see my red door and must have it painted black
Maybe then I'll fade away and not have to face the facts
It's not easy facing up when your whole world is black


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Três de um par perfeito (tag: 3 coisas)

Gostaria de não ficar apenas respondendo coisas por aqui, mas a vida está angustiante demais para eu escrever textos que não sejam em minha caderneta vermelha. E como já expliquei, não sei muito bem mais como é escrever sentimentos de forma direta, clara ou interessante.

Lendo o BEDA de algumas blogueiras que sigo*, encontrei essa tag/meme "três coisas", então vou responder rapidinho, porque tem umas questões felizes que talvez me animem nesse mês que detesto tanto (curiosamente, mês do historiador - 19 -, do Animal Farm - 17 -, e do filósofo - 16).

  • 3 coisas que me dão medo:
  1. mariposas
  2. baratas
  3. cogumelos (vivos - lembrando que são fungos)
  • 3 coisas que me dão preguiça
  1. arrumar a minha casa (porém sou organizada fora dela)
  2. sair (moro longe de tudo, sou caseira)
  3. multidões (detesto aglomeração)
  • 3 coisas que eu gosto
  1. ler
  2. trabalhos manuais (de costura a marcenaria)
  3. dançar forró
  • 3 coisas que eu sei fazer
  1. bordar (envolve ponto-cruz, tricot e crochet)
  2. entender até certo ponto a linguagem html e de programação
  3. bolo de laranja
  • 3 coisas que eu não sei fazer
  1. praticar esportes
  2. conversar sobre assuntos corriqueiros
  3. começar atividades cedo para terminar antes do prazo (tudo de última hora, literalmente)
  • 3 assuntos preferidos
  1. história
  2. música
  3. luta de classes
  • 3 assuntos que eu não gosto de discutir
  1. seriados
  2. literatura, filmes e música atuais
  3. política, quando caímos no lugar-comum do reacionarismo brasileiro e sobretudo paulistano, me dá enguio
  • 3 cheiros preferidos
  1. madeira seca queimada (me lembra o sítio de meu avô)
  2. roupa lavada, engomada e que quarou no varal (me lembra sítios num geral)
  3. tinta, querosene, removedor, aguarraz
  • 3 cheiros que eu detesto
  1. perfumes doces e florais (porém amo perfume amadeirado)
  2. fósforo
  3. gasolina (enjôo)
  • 3 melhores comidas
  1. arroz + feijão preto + ovo frito com gema mole e clara tostada + farinha
  2. sopa de feijão
  3. carne/frango/peixe cozido com batatas (batata é uma maravilha, só detesto a palha e as industrializadas, tipo ruffles)
  • 3 piores comidas
  1. muita fritura
  2. industrializados
  3. carnes com gordura, pele e/ou nervos
  • 3 piores redes sociais
  1. twitter (possuo, quase apagando)
  2. facebook (possuo, querendo apagar)
  3. tumblr (adoro o tumblr, mas ele trava demais e não consigo acessar)
  • 3 melhores redes sociais
  1. telegram (com stickers e gifs, nem sinto mais falta do msn)
  2. vk.com (é russo, mistura de facebook com orkut, dá para ouvir música lá dentro)
  3. blogger (vou considerar como rede social)
  • 3 melhores bebidas
  1. café
  2. cachaça (Ypióca e 51 não prestam)
  3. suco de laranja sem açúcar
  • 3 piores bebidas
  1. cerveja
  2. tequila
  3. água com gás
  • 3 coisas que me acalmam
  1. rock progressivo e música clássica/ gregoriana (solos de guitarra, contrabaixo nas notas mais graves, e órgão, de tubo ou não)
  2. árvores e vento
  3. deitar na cama para dormir depois de um dia interminável
  • 3 coisas que levam todo o meu dinheiro
  1. livros
  2. cadernos (parei com as canetas, graças ao bullet journal, agora só lápis)
  3. café
  • 3 coisas em que eu não gosto de gastar dinheiro
  1. transporte privado (a passagem do público já é cara demais)
  2. balada (bar com cover de classic rock ou bar normal com cachaça e cadeiras tá ótimo)
  3. sapatos
  • 3 coisas que me estressam
  1. direita e seus derivados (com opinião sem argumentos sólidos e/ou argumentum ad hominem)
  2. não-interpretação das coisas direito
  3. quando alguém diz para eu fazer algo (ainda mais se já estou fazendo esse algo; paro de fazer só porque "mandaram"fazer) e/ou conselhos não solicitados
  • 3 coisas que eu vou fazer essa semana
  1. trabalhar no sábado
  2. estudar os textos para o tcc
  3. me iludir e ter paranoias dostoievskianas
  • 3 coisas que eu fiz na semana passada
  1. comprei presentes (foi inútil e me arrependo)
  2. dei banho nas cachorras
  3. quebrei meus óculos
  • 3 coisas que quero fazer em breve
  1. ter uma companhia para beber e etc., não que isso seja uma (in)direta para alguém (leia deste modo)
  2. escrever artigos independentes
  3. organizar local de estudo em casa (tá uma zona e me prometo isso há anos)
3 coisas que eu deveria fazer em breve
  1. novos óculos (esperando oftalmologista disponível)
  2. leituras para o tcc (tá difícil sem o item 1)
  3. resolver questões pessoais complicadas que estão me deixando pior do que jamais estive; porém sigo racional
3 coisas que não quero fazer
  1. o item 3 da questão anterior
  2. dizer meus sentimentos para a companhia do item 1 da questão anterior da anterior
  3. continuar tendo redes sociais (me é nocivo, não aguento mais os assuntos, as gírias, as polêmicas, os trendings, a sociedade como um todo, a bolha on-line, a modernidade líquida, o admirável mundo novo)
Infelizmente percebi com essas respostas que me é muito mais fácil elaborar respostas negativas e do que "não gosto", do que dizer sobre aquilo que aprecio e admiro em mim e na vida. Sei que existe, mas a mente vira uma tela em branco na hora de me expressar. Já os rancores, na ponta da língua e pulsando na mente. Foi divertido, no entanto! É quase um planejamento e reflexão do que sou, fui e serei. Quem sabe renove esse texto daqui um tempo e me descubra totalmente diferente do que sou hoje?


He has his contradicting views
She has her cyclothymic moods
They make a study in despair
Three of a perfect pair


* Referência de onde tirei esse meme/tag: Hello Lolla, Vois des fleurs, A life less ordinary.

P.S.: estou sem óculos, atrasada, com fome e cansada de revistar este post. É possível que mais tarde ocorra alguma mudança, então não tratemos (nunca) como opinião formada sobre tudo e sobre o que eu nem sei quem sou.

domingo, 16 de julho de 2017

Liebster award

Regras

Escrever 11 fatos sobre você. ✔
Responder às perguntas de quem te indicou. ✔
Indicar de 11 a 20 blogs com menos de 200 inscritos.
Fazer 11 perguntas aos blogs indicados.
Colocar o selo do Liebster Award. ✔
Linkar quem te indicou: Mia (Wink). ✔

11 fatos sobre mim

1: Amo e defendo todas as ciências clássicas – isso é já uma crítica séria e veemente contra aquela piada desgraçada de internet de “não sei, sou de humanas”. Sou completamente de humanas – curso e trabalho com história, museologia, biblioteconomia e possuo livros em sua maioria de filosofia -, mas minhas melhores notas na escola eram em matemática, que amo também, e que está presente na natureza, no universo, e na música.

2: Amo o silêncio. Tem sido um assunto recorrente essas semanas: como tanta gente se desespera para falar, alto e constantemente, e como fico desesperada em ter que ouvir, quando a única voz que quero ouvir é a minha, dentro da minha própria cabeça, ou nem isso. Apenas o vento. Barulho me deixa irritada, faz com que minha cabeça comece a girar, girar e girar, a pessoa fala um assunto, e desse assunto nada mais me lembro. Não há concentração ou interesse. Existem brigas familiares por incompatibilidade de gênio aqui em casa, infelizmente.

3: Não assisto séries. Já assisti, não consigo mais. Tenho algumas – poucas – que me interessam, mas não tenho paciência de acompanhar. Talvez acompanharia apenas True Detective, que achei acima da média; e The Borgias, porque merece. O resto, ou me irrita o hype - sempre ele -, ou silencio as hashtags no twitter, ou deixo pra lá.

4: Pretendo seguir carreira acadêmica em paralelo com minhas atividades atuais, que são ligadas à pedagogia (coisa que aconteceu por obra do destino, parece). Tenho interesse em pós-doutorado e além, mas adivinhem: detesto o ambiente acadêmico e o elitismo, hierarquia que correm soltos por lá. Fora os problemas internos da educação, que nem vou comentar pois esse post já está muito nervoso quase sem querer.

5: Não sei escrever de maneira poética, sentimental, romântica, fictícia, pessoal. Sabia, na adolescência; parece até que eu era mais corajosa aos 16 anos que aos 25. Tudo que escrevo tem ficado tão sério, que o que de pessoal existe transparece nas referências e no meu desejo de defender aquilo que gosto, ou de ofender aquilo que detesto. Sinto certa saudade da crueza em dizer sentimentos, sem misturá-los com a razão, e sem me importar com vírgulas no lugar certo e sinônimos para palavras recorrentes.

6: Esse ano aprendi a me apresentar em seminários, ou melhorei uns 60%. Mas no último, que apresentei sozinha, eu chorei. Porque era um assunto muito especial, que espero mostrar aqui até dezembro. Posso adiantar que estava citando uma estrofe da música Cidadão: a voz sumiu e veio o choro. Mas aquele choro que nem lágrima sai, de tão complicado.

7: Falando em chorar, fui duas vezes em show de Elba Ramalho. Sou mais fã do , mas não sei o que me dá com aquela mulher maravilhosa que eu choro. Na primeira vez, o motivo se misturava com saudade de mamãe e raiva de um dia muito ruim; na segunda, foi realização, alívio, orgulho, e admiração mesmo. A voz dela é tudo o que a gente ouve e mais um pouco. A danada ainda toca violão e triângulo. Parece que já foi baterista na juventude.

8: Não há lugar nesse mundo que eu ame mais que o Nordeste brasileiro. Me sinto parente de gente que nem conheço e sequer chegarei a conhecer um dia; tenho um breve desgosto por não ter nascido exatamente lá, mas o amor é tão grande que nem dói de verdade. Então alio minha luta de classes com meu nordeste, que tem o céu tão lindo e enorme que parece que está caindo na cabeça da gente. Quem não conhece, caso tenha oportunidade – e luto para que todos tenham oportunidades -, visite. Por favor.

Uma publicação compartilhada por jack passos (@passosos) em

9: Do mesmo modo, sinto a América Latina presente em mim mais do que a ideia patriótica de ser brasileira. Amo meu país, claro. Mas jamais fui patriota. Contudo, aquele negócio no peito da gente, que imagino que os patriotas queiram que a gente sinta, eu sinto pelas terras de língua latina no continente americano.

10: Toda noite sonho com transporte. Não tem absolutamente nada a ver com a atmosfera desse mundo, nem com as cinco horas diárias que passo pra lá e pra cá em São Paulo. Sempre sonhei com transporte, sem nem sair de casa todos os dias. Já sonhei com bairros e estações que inexistem, lojas de comércio, cidades; sempre estou em vagões de trem ou metrô, onde só o nome da estação se equipara à realidade. O restante minha mente inventa – ou viaja para outros mundos, quem sabe. Já dirigi, pilotei avião, estive em vagão de trem do século XIX acendendo lâmpadas incandescentes, tive um piripaque numa estação, criei ligações diretas entre Ipiranga e Pinheiros, e um bairro inteiro na extrema Zona Leste, com direito a visitar vários estabelecimentos. Sonhos recorrentes com papelarias também acontecem, e fantasmas, casarões e livros têm medalha de bronze. Mas eu sonho, todas as noites.

11: Nada de miga, mana, flor, amor, fia: me chame pelo nome. Não acredito em deboísmo, pacifismo, good vibes, #pas e gratidão 🌸. Sobre tudo isso: tô fora, pego meu coração peludo e vou embora.

11 perguntas da Mia

1. Qual livro você gostaria de ter escrito?
Acho que gostaria mais de escrever meu próprio livro do que ter escrito um livro que já existe. Talvez se fosse eu escrevendo qualquer obra que hoje admiro, o sentimento por ela seria diferente, porque eu teria tudo aquilo em mim, os rascunhos, as horas de desespero, cansaço, encheção de saco do editor, críticas ruins dos leitores, gente que interpretou errado. Para tanto, vou deixar um pensamento do David Gilmour; é sobre música, mas é um ponto de vista do lado de lá: qual disco você gostaria de não ter composto? Acho esse pensamento dele muito forte: participou de um dos maiores discos do século XX (nem adianta contestar, ficou 15 anos nas listas da Billboard 200; isso são 917 semanas), mas vai morrer sem saber como é o impacto de ouvir toda a obra pela primeira vez. Porque ele viveu os bastidores e os spoilers musicais todos – que muito fã gostaria de ter vivido, e eu, pelo mesmo motivo dos livros, não gostaria não.

fonte

2. Você tem/teve animais de estimação? Conte uma história sobre ele ♥

Já tive papagaio, galinha, ‘rolinha’, sabiá, pombo, calafate, e agora possuo duas gatas e duas cachorras (Nininha, Bella, Maggie e Nina – a Nina já veio com esse nome, por isso a coincidência com o nome da gata, que é no diminutivo mesmo). Poderia dizer mil histórias sobre elas, mas digo o mais curioso e corriqueiro: Nininha, mãe de Bella, bate nela toda vez que se esbarram. Às vezes lambe, mas só se não tiver humanos por perto. Fora isso, só porrada. As cachorras correm atrás de gatos, menos dessas duas. Morrem de medo delas, especialmente de Nininha, que já apartou uma briga das cachorras batendo em todas elas.

3. Você coleciona alguma coisa? O quê?
Livros. Infelizmente no sentido acumulador da coisa, mas a biblioteconomia tem me salvado. Ganhei muitos livros nos últimos 16 anos, de “descarte” de gente rica do prédio em que meu tio trabalha. Por apego, fiquei até com as obras que não me interessam diretamente, e tenho lutado contra a umidade na minha casa, então está sendo perigoso manter uma coleção tão grande. Vou descartar alguns, e doar outros, em melhores condições. Até porque continuo comprando.

4. Qual é a história do nome do teu blog?
Acredito que tenha sido porque já havia decidido que faria faculdade de História. Então tem toda uma característica de o passado diz coisas, civilizações antigas, pensamentos que foram aperfeiçoados ao longo dos séculos… já tentei mudar de nome quando pensei no velho mundo como a Europa diante do novo mundo, a América. Mas não me adaptei a outro nome de blog. Esse sobrevive desde 2008, com posts arquivados ou expostos.

5. E a história do teu nome? Sabe por que teus pais te deram ele?
Acho que minha tia sugeriu meu nome: Helen Cristina. Seria Juliana, a gosto do meu pai, mas ainda bem que segui sendo a tocha grega, personagem central da Guerra de Tróia, que motivou a briga entre Paris e Menelau. Seria briga pelo poder? Por amor? Alegoria? Não sei.

6. Se você pudesse ressuscitar qualquer figura histórica da humanidade, qual seria?


Marx, 1839, de I. Grinstein, 1961
Marx, 1839, de I. Grinstein, 1961

Marx, diante da sociedade atual. Sinto que poucos de fato compreendem um pouco de seu pensamento. E não é só na direita que devemos pensar, quando falamos a famosa frase "deturparam Marx". Muita esquerda também não colabora.

7. Qual foi o último livro que você leu?
O que é fascismo e outros ensaios, de George Orwell. Percebi com ele apenas uma coisa: preciso ler os autores citados por ele para entender o que está dizendo, porque fiquei um pouco perdida. Mas vale a pena: são relatos ao vivaço do que ele enxergou da intelectualidade durante a II Guerra Mundial.

8. O que você mais tem escutado nos últimos tempos?
Segundo minha last.fm, Vincent Gallo, John Frusciante, Pink Floyd, Black Sabbath, Metallica e Faith no More. Porém não só isso. Os dois primeiros, amo pelo talento e pela inspiração, escrevi um artigo no começo de junho e precisava bastante; ajudou demais. Floyd, porque não há como não ouvir. E as seguintes, porque amo contrabaixo e preciso de um classic heavy metal na minha vida, porque sou dura sem perder a ternura. Ah, e voltei a ouvir Red Hot Chili Peppers; tanto, que foi minha primeira playlist da newsletter, já viu?

9. Numa época de vlogs e newsletters, por que você ainda mantém um blog?
Porque marcou uma época. Porque me faz bem entrar num blog e ver um layout bonito e original, assim como textos interessantes, sejam eles tristes ou divertidos. E se o layout não me agrada ou faz meu computador travar, tenho o feedly como apoio. Por isso, não se esqueçam de ativar o feed/rss no blog de vocês, por favor. Tenho maior apreço por blogs com terminação blogspot.com. É como se fosse uma casa, como se estivesse visitando alguém muito modesta(o) e hospitaleira(o). O estilo de escrita é a marca inconfundível de um blog, mesmo que seu logo constantemente mude. Ainda assim sigo blogs com aparência e conteúdo clichés, quando um post ou outro me interessa.

10. Se você pudesse trocar de lugar com qualquer personagem de livro, filme ou série, com quem trocaria?
Elizabeth Bennet, acho. Porque basicamente meus personagens favoritos são todos uns azarados existencialistas, e já me vejo em atitudes de cada um, principalmente o próprio Dostoiévski; se não isso, são personagens sofredores da época do romantismo que se sacrificam e/ou suicidam por amor. Então seria bom ao menos uma vez ser uma moça inteligente, decidida, estudiosa, que ignorou um homem arrogante, e o fim quem leu/assistiu já sabe, quem não leu/assistiu, descubra.


11. Se sua vida fosse um filme quem seria o diretor?
Ingmar Bergman / Orson Welles / Dario Argento.

O Ingmar consegue mostrar questões da existência muito bem, sem ser óbvio como os chargistas políticos que fazem caricaturas com legenda; é meu diretor de filmes favorito e a morte d'O sétimo selo, e todas as questões levantadas no filme são essenciais para reflexão. Com ele e A flauta mágica tive outro olhar em direção à ópera.

Papageno e Papagena, melhores personagens
O Orson materializou o ambiente de meus sonhos - vide fato 10 - em O processo, com Anthony Perkins. Se fosse um filme surrealista, ou sobre meus sonhos, seria dele.

fonte
Dario Argento é um artista para o terror e para o giallo italiano. Também tem questões sobre a vida em Profondo rosso que pretendo tratar aqui mais tarde. Se meu filme fosse com cor, e com meu lado Dostoiévski e as notas do meu subsolo, meu diretor seria Dario Argento com sua parceria com o rock progressivo para trilha sonora. Anos 1970 e língua românica são meu espírito animal.

David Hemmings, Daria Nicolodi, Dario Argento
Já falei mais ou menos sobre os três diretores, o que mostra que sou condizente comigo mesma.

12. Você tem alguma pequena obsessão - por algum assunto, uma época, um personagem histórico...? Se sim, qual?
Assunto: luta de classes. Sempre tive tendência à contestação, mesmo que, na maioria das vezes, exprimida apenas mentalmente. Quando conheci o comunismo / marxismo, encontrei pessoas que, a despeito do tempo em que viveram e vivem, conseguem traduzir o que tanto questionei a minha vida toda, seja em sentimento, seja em opinião. Sigo estudando o tema, que de todas as questões políticas, é meu carro-chefe.

Época: meados de 1960 e 1970. Psicodelia e rock progressivo nasceram nessa época cheia de ditaduras pelo mundo. A arte se sobressaiu e, para o bem e para o mal, moldou e inspirou gerações. O mal, no caso é quando algo vira ingrediente para o lucro dos capitalistas, quando estes se aproveitam da subversão do jovem ao sistema e reformulam sua linguagem para vender seu produto mascarado de descolado ou, atualmente, desconstruído, explorando o discurso dessas pessoas para benefício próprio. (Estou querendo escrever sobre as bandas que apareceram a partir daí, fora do cenário da contracultura, um modo de empresários se aproveitarem da genuína rebeldia da juventude e usar como marca de bandas a partir do fim dos 1970 e toda a década de 1980, será que escrevo?). Onde podemos ver, na música, tais questões? Welcome to the machine e Have a cigar, entre outras.

What did you dream? / It's alright we told you what to dream / You dreamed of a big star / He played a mean guitar / He always ate in the Steak Bar / He loved to drive in his Jaguar / So welcome to the machine

Personagem histórico: George Orwell. Meu TCC da faculdade foi baseado nele e em A revolução dos bichos. Por mais que possivelmente passemos, futuramente, a discordar um do outro, jamais o esquecerei, esteve comigo num momento importante da vida que foi a realização de um trabalho acadêmico, mesmo que breve. Será meu parceiro [canceriano] em críticas à esquerda e ao sistema sempre.

* Minhas 11 perguntas são as 12 da Mia, achei excelentes e não estou com cabeça para criar perguntas, considerando que há uma semana estou montando esse texto e nada me veio em mente. Também indico a você que está lendo, já que as blogueiras que conheço foram previamente indicadas, e não possuo muita intimidade na blogosfera para tanto. Se responder, me passa o link que lerei, com muito prazer e curiosidade!